TRANSPLANTE


por PEDRO SARAIVA PINHEIRO

Hoje em dia podemos transplantar vários órgãos e tecidos. Coração, rins, fígado, pâncreas, pulmão, intestino, pele, córneas, medula óssea e ossos são os principais.
Então como é que funciona um transplante?

Nosso sistema imune é programado desde a época embrionária para diferenciar os genes de nossas células, dos genes de organismos invasores. O nosso corpo não sabe diferenciar o que é perigoso do que benéfico, por isso se comporta da mesma maneira com um órgão transplantado e uma bactéria. Ele apenas ataca tudo que não for “original de fábrica”.
Existe um grupo de genes nos humanos chamado de HLA que são os responsáveis por essa diferenciação. É como se esses genes colocassem um crachá com foto em todas as nossas células.
Toda vez que uma célula de defesa circulante no sangue (nossos glóbulos brancos) encontra uma célula com um crachá diferente, soa um alarme no sistema imune que convoca inúmeros glóbulos brancos para atacar este ser estranho.
O grande desafio do transplante é impedir que nossas células reconheçam o órgão transplantado como um invasor. A chamada rejeição do transplante nada mais é do que nosso sistema de defesa destruindo um órgão transplantado.
Todos os doentes transplantados precisam ser medicados com drogas que inibem nosso sistema imune. As drogas basicamente deixam as células de defesa confusas. Elas olham um crachá diferente e não notam a diferença, ou notam mas não conseguem convocar reforços para atacar o invasor. Isso é muito bom para o órgão transplantado, mas é péssimo caso aconteça com uma bactéria ou vírus invasor.
O desafio da medicina é impedir a rejeição do órgão sem atrapalhar o sistema de defesa contra germes invasores.
As drogas atuais agem no sistema de defesa mas não consegue enganá-lo por muito tempo. O processo de rejeição é lentificado, mas sempre ocorre. Nos primeiros transplantes realizados no início do século XX, a rejeição ocorria imediatamente sem que o órgão sequer funcionasse. Há alguns anos, as drogas conseguiam evitar a rejeição por pouco tempo. Até o final da década de 80, a maioria dos pacientes perdia o órgão tranplantado com 1 ano. Hoje em dia, um transplante é considerado um sucesso se durar pelo menos 10 anos. Existem casos de pessoas com até 30 anos de transplante.
Todo doente transplantado precisa tomar medicamentos imunossupressores para o resto da vida. Quanto mais parecido geneticamente forem o doador e o receptor, menos drogas serão necessárias e mais tempo o órgão transplantado costuma durar. Pacientes que recebem um órgão doado por um irmão gêmeo univitelino, em geral não precisa de drogas imunossupressoras, uma vez que seu material genético é idêntico ( são clones). Receber um órgão de um irmão, mesmo que não gêmeo, é melhor do receber um órgão de um pai, que é muito melhor que receber um órgão de um primo, que por sua vez é melhor que receber um órgão de uma pessoa sem nenhuma relação familiar.
Portanto, quantos mais genes da classe HLA em comum existir, maior é a chance de sucesso de um transplante.
Obviamente alguns transplantes como coração e pulmão só podem ser realizados por doador morto. No caso do transplante renal por exemplo, uma pessoas viva pode ser doadora. Isso favorece a doação entre familiares e faz com que o transplante renal seja o que tenha maior taxa de sucesso. Todos os transplantados são considerados pessoas imunodeprimidas. São pacientes susceptíveis a infecções graves. Na verdade, as principais complicações de um transplante de sucesso são as infecções e o surgimento de neoplasias. Todas devido a um estado crônico de baixa imunológica. É importante saber que o transplante salva vidas, devolve a visão e retira pessoas das hemodiálises, porém ainda não é a solução definitiva (deverá ser no futuro) e nem é isento de complicações.
Transplantados devem tomar remédios pelo resto da vida e devem ter consultas médicas regulares para avaliação do estado do órgão transplantado.
O desenho abaixo mostra como fica um rim transplantado. Ao contrário do que se possa imaginar, os rins não funcionantes não são retirados. O transplantado fica na barriga, logo acima da virilha. Consegue-se inclusive palpá-lo.

 

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