Prioridade para crianças: conquista justa


As doenças que afetam as crianças costumam ter um efeito perverso. Transformam em pacientes pequenos seres humanos que nem sabem o que isso significa e acabam sofrendo duplamente, pela dor da doença e pelo medo do desconhecido. No entanto, não precisa ser sempre assim. Há situações, e são muitas, em que o quadro pode ser revertido graças aos avanços da medicina e à excelência das instituições hospitalares. É o caso da insuficiência renal crônica, problema que afeta de seis a sete crianças em cada grupo de 1 milhão da população pediátrica. Só no Rio Grande do Sul são, em média, 20 novos casos da doença em crianças por ano enquanto que os novos casos em adultos são em torno de 1.300/ano. Quando isto ocorre, é necessário um tratamento de substituição da função renal e as opções de terapia são a diálise e/ou transplante renal, que não se excluem mutuamente, ao contrário, são complementares. Durante a diálise, as crianças não alcançam o crescimento adequado, têm muitas restrições alimentares, físicas e déficit cognitivo. Além disso, com o passar do tempo começam a apresentar dificuldades técnicas na diálise. A análise destes dados indica que o transplante renal deve ser considerado como a forma de tratamento ideal. Quando uma criança apresenta insuficiência renal crônica, quase sempre os pais são os doadores, fato que acontece em cerca de 50% dos casos. Quando existe uma incompatibilidade sanguínea ou incapacidade dos pais ou outro familiar de doar, a criança entra em lista de espera. Por falta de doadores, muitos pais veem seus filhos definharem em processos de diálise peritoneal ou hemodiálise quando poderiam conseguir outro rumo para o tratamento dos pequenos. A criança se beneficia com a prioridade no momento da distribuição desses órgãos. Distribuição direcionada de rins provenientes de doador pediátrico para receptor também pediátrico é legal, justa e traz melhores resultados pelos seguintes motivos: * A concordância do tamanho entre doador e receptor proporciona função renal mais adequada; * Crianças não devem receber rins de doadores com mais de 55 anos, não concorrendo com adultos; * Rins de um doador pequeno, menor que cinco anos, favorecem duas crianças. Ao contrário, se esses órgãos forem transplantados em adultos, os dois deverão ser colocados em bloco em um receptor somente; * Tratamento com diálise não é bem tolerado por crianças e adolescentes; * O estatuto brasileiro da criança e do adolescente dá prioridade em todos os tratamentos para estes dois grupos; * A prioridade para crianças acarreta aos adultos em lista de espera para transplante renal um retardo de apenas três meses. Os novos critérios estabelecidos na atual portaria do Ministério da Saúde já estão em prática no Rio Grande do Sul e em São Paulo desde 2004 e 2001, respectivamente, com sucesso. Portanto só temos que festejar esta nova conquista para o bem da sociedade brasileira.

Clotilde Druck Garcia – NEFROLOGISTA, RESPONSÁVEL PELO SERVIÇO DE TRANSPLANTE RENAL

fonte: http://www.adote.org.br/news

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