Transplante (I) – Dr. Pedro Saraiva Pinheiro – de Portugal

por PEDRO SARAIVA PINHEIRO (médico da equipe de urgências médicas do Hospital Universitário de Santa Maria, Lisboa )

2 episódios me incentivaram a falar sobre o transplante de órgãos.

O primeiro aconteceu há algumas semanas e foi bastante noticiado pela imprensa. Estou falando da prisão de médicos acusados de fraudar a fila de espera do transplante de fígado no Rio de Janeiro.

O segundo é uma experiência própria que vivi esta semana aqui no hospital em Lisboa. Um paciente havia tido morte cerebral confirmada após um catastrófico AVE hemorrágico. A família sabia do estado grave do doente, mais quando a morte cerebral foi confirmada, não se conseguia contactar os familiares para dar a notícia. O doente foi mantido “vivo” artificialmente e seus órgãos foram retirados para transplante, mesmo sem o contato ter sido estabelecido.

A lei aqui é igual a do Brasil. Todo mundo é automaticamente um doador a não ser que deixe isso por escrito. A diferença é que no Brasil, apesar da lei autorizar, os médicos não costumam retirar órgãos se não houver autorização da família. O problema é que quase nunca o doador expressa sua vontade enquanto vivo, já que ninguém espera morrer subitamente. E abordar esse assunto após uma morte trágica em geral não é bem recebido pela família. Aqui em Portugal tenta-se sempre avisar a família, mas não se deixa de transplantar se isso não for possível.

Essa história da fraude da fila de transplante no RJ, verdadeira ou não, é péssimo para o programa de transplantes de órgãos que já sofre com inúmeros mitos.

Pois vamos a eles:

Algumas famílias usam motivos religiosos para não autorizar a doação. Na verdade, não há nenhuma religião, nem mesmo as testemunhas de Jeová (deixou de ser considerado canibalismo em 1980), que se oponha ao transplante de órgãos. Não sou religioso, mas acho difícil imaginar que Deus prefira ver um órgão apodrecer e servir de alimentos para vermes, do que fazer com que o último ato de um ser humano seja salvar uma ou mais vidas, tirar pessoas das máquinas de hemodiálise ou devolver a visão a quem não enxerga.

Algumas pessoas temem que a retirada de vários órgãos deforme o corpo. A remoção dos órgãos deixa a mesma cicatriz que uma cirurgia deixaria. Não há nenhuma diferença para o velório, que pode ser inclusive com urna aberta.

Existe um medo de que os médicos não se esforcem para salvar um doente sabendo que este é um potencial doador. Isso é um absurdo ! Os médicos que trabalham nas emergências não têm qualquer relação com a equipe de transplantes e não recebem nenhum tipo de incentivo ou vantagem se houver uma doação de órgãos. Além disso, durante o procedimento de ressuscitação, quase nunca temos conhecimento dos histórico clínico do doente para sabermos se esse pode ser doador ou não. Só depois de constatado a morte cerebral é que o paciente passa pela bateria de testes para avaliar a possibilidade der ser doador. A grande maioria das pessoas mortas não servem para doadores.

Existe também o receio de que um diagnóstico errado de morte cerebral possa desligar os aparelhos de uma pessoa ainda com chances de recuperação. A morte encefálica é um processo irreversível. Os protocolos para sua confirmação são rigorosíssimos. São inclusive realizadas pesquisas de drogas que poderiam simular uma falta de função cerebral.

Um dos exames realizados é a angiografia cerebral, onde se detecta a falta de vascularização no cérebro. Reparem na foto abaixo. A primeira imagem mostra um cérebro normal com vários vasos irrigando o cérebro. Comparem com a 2º foto, onde não se nota nenhum tipo de irrigação sanguínea. Esse é um cérebro morto. ( leia o texto sobre AVE para saber o que acontece com um cérebro que não recebe sangue adequadamente).

Existe um outro mito, que fala sobre o tráfico de órgãos. Quem nunca recebeu o e-mail do cara que acordou em uma banheira de gelo sem os dois rins. O transplante de órgãos é um dos procedimentos mais complexos da medicina. A quantidade de profissionais e material necessário e muito grande. Não é um aborto que pode ser feito em qualquer “trambiclínica”. Tráfico de órgãos até existe, mas não conheço histórias verdadeiras no Brasil.

Trabalhei durante 2 anos no serviço de transplante renal do hospital Pedro Ernesto da UERJ. Participei ativamente da seleção dos pacientes que iriam receber os rins e inclusive levava pessoalmente o rim para dentro da sala de operação. Posso atestar que o processo é 100% honesto.

A fila de espera, há algum tempo, não é mais uma simples fila por ordem de inscrição. O tempo de fila conta, porém, o mais importante é a compatibilidade genética entre o órgão doado e o receptor. Quanto mais parecido forem os dois, maiores são as chances de sucesso (no próximo texto vou explicar um pouco como funciona um transplante).

Vou falar do transplante de rins que é a área em que tenho experiência. Todo mundo que se inscreve na fila de transplante faz um exame para avaliação dos seus genes. Quando surge um doador, essa mesma avaliação também é realizada. Os dados então, são jogados em um banco de informações que seleciona os 10 pacientes da fila que mais se assemelham geneticamente com o doador. O mais parecido é sempre o primeiro da fila.

Esses 10 candidatos são então contactados e orientados a se dirigir para um determinado hospital. Ao chegar, são avaliados por uma equipe médica, que escolherá qual dos 10 receberá o rim. O primeiro tem sempre prioridade.

Após a retirada do rim do doador, o transplante deve acontecer preferencialmente em no máximo 24 horas. Quanto mais cedo melhor.

Existem vários motivos para o primeiro da lista não ser o escolhido. Eu mesmo já peguei casos em que isso aconteceu. Se o doente estiver com infecção, se não tiver seus exames do em dia (existem exames especiais para quem está na fila que devem ser atualizados a cada 6 meses), se houver alterações no eletrocardiograma do pré-operatório, se não se conseguir contactar o paciente a tempo ( já peguei casos em que o paciente estava viajando), se doente tiver recebido transfusão de sangue recentemente etc… Existem inúmeras outras contra-indicações e não vale a pena citar todas.

Eu mesmo já tive que selecionar o 4º da fila, pois os 3 primeiros não estavam aptos naquele momento. Se o processo for feito honestamente, e se os pacientes recusados receberem as devidas explicações, em geral todos costumam aceitar a decisão.

Bom, você pode estar pensando que esse processo final de escolha é subjetivo e pode estar sujeito a fraudes. Na verdade, os critérios são bem objetivos e registrados em prontuário. Qualquer tentativa de manipulação pode ser facilmente questionada em tribunal. Além disso, é imprevisível saber que equipe vai receber o rim para um determinado transplante. Existe um rodízio entre os hospitais que recebem os órgãos. Como já disse, a equipe responsável é grande e trabalha em turnos. Ou seja, não se tem como saber previamente que horas a morte vai ocorrer, que hospital receberá o rim, que equipe estará de plantão etc…

Fraudes existem em qualquer área que o ser humano esteja envolvido. Existem fraudes em concursos públicos, em reality shows de TV, em campeonato de futebol, em julgamentos, em licitações, em processos de privatização de estatais, no vestibular etc…

Óbvio que também pode haver fraude nos transplantes. Mas o processo é feito para ser lícito e em 99% das vezes é isso que acontece. Infelizmente procedimento médico é igual viagem de avião, só vira notícia quando dá errado.

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2 Respostas to “Transplante (I) – Dr. Pedro Saraiva Pinheiro – de Portugal”

  1. walmasiero Says:

    Basta que seus parentes mais próximos saibam o seu desejo e o respeitem.

  2. Portal » Blog Archive » 6. TRANSFUSÃO SE SANGUE EM TESTEMUNHAS DE JEOVÁ Says:

    […] Transplante (I) – Dr. Pedro Saraiva Pinheiro – de Portugal … […]

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